Thursday, 13 January 2011

Acordo Ortográfico: uma visão do que nos espera

Imaginem que instalavam um sistema operativo no computador.
Imaginem que esse sistema era LINUX. É uma boa ideia, sem dúvida. Mas continuemos a imaginar...
Imaginem que era a distribuição RED HAT 5.5. Continua a ser uma boa ideia. Mas teremos de continuar a imaginar.
Imaginem, agora, que tinham a infelicidade de escolher a instalação da versão em Português. Os mais batidos nestas coisas, por esta altura, já estarão a espumar pelos cantos da boca, rangendo os dentes, e vociferando mentalmente: «Mas que idiota é que instala software em Português?!». Continuemos a imaginar.
Imaginem que mandam executar o comando:
«ls naoexiste».
Imaginem que obtêm a resposta:
«ls: naoexiste: Nenhum tal lima ou directório».

Para quem não tem conhecimentos destas coisas, a mensagem equivalente em inglês é:
«ls: naoexiste: No such file or directory».

Como tal, a continuar assim, e com a ajuda do Acordo Ortográfico (que facilita a entrada em Portugal de traduções "Made in Brasil"), prevejo que cada vez menos pessoas terão paciência para ler textos em português.

Ou seja, o Acordo Ortográfico apenas servirá para empobrecer a língua portuguesa, porque quem tem possibilidade de comunicar noutra língua, certamente que o fará. Ou seja, cada vez mais a língua portuguesa será usada exclusivamente por pessoas menos cultas, já que as demais optarão por outras línguas.

Estou em crer que, no futuro, será possível distinguir pela escrita os diferentes níveis de cultura e estratos sociais. As pessoas mais cultas têm tendência a não aderir ao Acordo Ortográfico.

Repare-se que este afastamento da língua portuguesa não é fenómeno recente. Na situação concreta dos programas de computador, isto ocorre desde as primeiras traduções efectuadas para português. Nessa altura as únicas versões eram em português do Brasil, e tinham expressões como "Socorro" para a opção de "Help" (actualmente é "Ajuda"). Algumas permanecem até aos dias de hoje, como "Salvar" para "Save" ("Gravar").

O aparecimento da Internet veio agravar a questão, com "Baixar" para "Download" ("Descarregar"), por exemplo. Basta observar a Wikipedia (http://www.wikipedia.org/) e comparar a quantidade de artigos que existem em cada uma das línguas. A proporcionalidade entre o número de artigos e de falantes para cada língua, não se mantém. E vai agravar-se. Há muitos falantes de português que já contribuíram para artigos da Wikipedia em inglês, e que nunca o fizeram para a Wikipedia em português.

Não é, pois, ** uma questão de ortografia. É *também* o que virá junto com a eliminação das diferenças na ortografia. É a possibilidade de introduzir traduções de baixíssima qualidade, vindas do Brasil, a um fracção do preço (dadas as diferenças de vencimentos e câmbio).

Há muito tempo que apenas instalo software em inglês (excepto na falta de opção), chegando mesmo a comprar o software no UK por não haver versões em inglês à venda em PT. E na Internet, nos sites multilingue, escolho sempre a opção em inglês (UK), embora alguns desses sites muitas vezes insistam em sugerir o português.

Agora, com o Acordo Ortográfico, já deixei de comprar publicações do grupo IMPRESA (Expresso, Visão, Exame, Exame Informática, etc.), por terem aderido ao AO. O mesmo se passa com a DECO, da qual irei deixar de ser associado porque não tenho paciência para ler a PROTESTE com o AO. Idem para a RTP.

O mais certo é passar a desenvolver conteúdos exclusivamente em inglês. Nem que seja pelo simples facto de terem maior audiência.

Português língua de futuro?
Não!
Português, a língua pobre no futuro.

http://fs1.nuno.net/DiscordiaOrtografica.pdf

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